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[Terça-feira, Janeiro 25, 2005]
Bem, pra quem me conhece, pelo menos um pouco sabe de minha preferência por mudanças, e como isso não muda hehehe (que trocadilho barato), estou mudando de filofia, e junto vai embora essa história de blog e flog, sei que deveria ir junto uma coisa chamada MSN e métodos de comunicação via internet, mas como certas coisas agente num pode ir contram, e dizer, Abaixo à globalização! é burrice hoje em dia (além de ser utopia), posso pelo menos parar de expôr as minhas idéias inúteis e sem nexo por aqui....
Bjus pra todo mundo, gosto de todos, é natural que irei continuar dando o ar da graça em suas HP's.... Beijo especial pro Fillipe, que é o meu amor especial (que conheci por aqui), um abraço cheio de saudade pro Thiago e um monte de beijos e abraços, e carinhos pro Alex, esse cara é demais pra mim... A Luanda que me emprestou um monte de coisinhas legais pra colocar aqui, e que tem um gosto bem estranho para templates, e utilitários.... bem, um grande beijo pra Laurianne (desaparece quando quer...) e pro Carlos, que de vez em quando lembra de mim... =)
adeus blog, espero não me arrepender da decisão....
por Pepita * 2:56 AM
Quer falar alguma coisa?:
[Sexta-feira, Janeiro 21, 2005]
Meu poema
Você é o meu poema mais sedento
Mexe
Remexe
Comicha meu ser
Me confunde no meu alento
Você como quem quer e não quer
Arranca meus pedaços em forma de poesia
Nela relato minha agonia
Você é o meu poema
Poema que reflete na escuridão
Poema que dá sabor ao pão
No meu jeito feminil
Você é meu benfeitor
Me fascina
Me encanta
Sinto a magia do amor.
Neuza Rita
por Pepita * 3:09 AM
Quer falar alguma coisa?:
[Domingo, Janeiro 16, 2005]
Construo no silêncio de minh¿alma a estranha mania de amar, não o sentido do verbo popular, tampouco no sentido de ser amada, mas sim no sentido de defender com garras, unhas e dentes, o amar verbo intransitivo. Por que? Bem, o que há de tão bom em amar, se não as doces e melancólicas cartas de alguém para ninguém? As doces melodias ensaiadas em frente ao espelho para nunca serem ditas a alguém....
Tah certo que sou obrigada a concordar que sempre é bom ter alguém coladinho, alguém com quem conversar, ou até mesmo alguém pra brigar de vez em quando, mas porque não fazer isso com um amigo chegado, com uma irmã (ou irmão) um bicho de estimação, ou até mesmo uma folha de papel... Defendo sempre a hipótese de que os padres sempre servem pra esse tipo de coisa, para ouvir e falar de vez enquando ...
***Voltando à átiva... vida... submundo, ou sei lá o que é isso....
por Pepita * 2:29 AM
Quer falar alguma coisa?:
[Sábado, Janeiro 15, 2005]
***Essa é a última parte do "O Vôo", o final até que é previsível, no entanto trágico de qualquer forma... todos nós sempre sabemos o que acontece quando se é inconseqüente...
Resolveu sair ainda bem cedo, antes que as pessoas começasses a acordar pois podiam chamar a polícia se o vissem ali no matagal. Saiu olhando para o chão, andou por uma hora, parecia-lhe que cada pessoa que cruzava na rua sabia do seu segredo, que olhavam para ele com medo e desconfiança, e ele tremia cada vez que ouvia se aproximar um carro, e se fosse a polícia? A essa altura, com certeza, já fizeram muitos retratos-falados, deve haver pelo menos 1000 testemunhas, todo mundo o viu atirar na garota, talvez seja até mesmo acusado de matar o outro rapaz. E agora? O que ele iria fazer? E se voltasse para casa? Não, melhor não, se a polícia o identificasse e o fosse buscar em casa ele morreria de vergonha, preso, na frente da mulher e da filha, não, melhor ser preso longe de casa. Talvez devesse ir procurar o cunhado... Não, não aquele traste deve ter fugido de lá, claro, o outro poderia fugir, afinal, saíra dessa com a grana e a moto, poderia se esconder onde quisesse até baixar a poeira. E ele, Jefferson, o que poderia fazer? Muitas incertezas atormentavam sua mente. Olhou o jornal numa banca, a página da polícia estampava: ASSALTO DEIXA DOIS MORTOS EM DROGARIA. Tremeu. Começou a ler o resumo da matéria na capa:
¿Assalto na Drogaria Lisbela, na tarde de ontem, terminou com morte de duas pessoas: Maria Aparecida das Neves, 22, e José Pereira da Silva, 21. Os assaltantes conseguiram fugir. A polícia está procedendo ao reconhecimento dos assaltantes pelas imagens das câmeras de segurança da drogaria¿.
Pág. C3 ¿.
Opa! Com essa ele não contava, câmeras de segurança. Lembrou-se do capuz arrancado durante a luta. Merda! A essa hora já o tinham identificado, estava perdido. Caminhou a passos rápidos querendo achar um lugar pra se esconder, se não fosse essa droga dessa luz do sol iluminando tudo que é lugar poderia até se esconder fácil. E, se ele se entregasse? Se cooperasse com a polícia? Talvez não ficasse preso muito tempo, era réu primário, tinha domicílio fixo e... Merda! Não tinha emprego, nem atividade definida, era um desempregado, desocupado, vagabundo, vadio! Quem acreditaria nele? Um homem que tem família e vive sem trabalhar... Lembrou do Sr. Nassib, queria voltar àquele tempo, queria voltar à noite que chegara da entrevista, queria ver a esposa de novo, mas tinha medo de ser preso na frente dela e da filha.
Parou em uma merceariazinha de bairro, pediu água, tinha a garganta seca de angustia. Uma senhora o atendeu, a princípio, meio desconfiada. A Tv ligada noticiava a temporada de crimes do dia anterior num desses fétidos programas policiais, de costas para a Tv a senhora não viu quando a imagem de Jefferson, sem capuz apareceu na tela, com a cara assustada logo depois dos disparos, as imagens eram em preto e branco, típicas de câmeras de segurança. A senhora começou a fazer um comentário sobre a violência da cidade, aquele crime foi noticiado, de manhã, no rádio, a moça era noiva de um policial civil, e toda a polícia estava sendo mobilizada para capturar os assaltantes. Jefferson só bebeu um gole da água, agradeceu e saiu quase correndo. Era o fim, com certeza era só questão de tempo até ele ser pego, o noivo da moça assassinada era policial, droga! Com tanta gente no mundo porque ele tinha que cruzar com a noiva de um policial? Era certamente sua sentença de morte, seria preso, iria apanhar por horas, depois seria mandado para a penitenciária, e, uma vez lá, seria assassinado pelos próprios carcereiros. Angustiou-se muito pensando nisso, lembrou do sonho, sua esposa caída na vida, sua filha, meu deus, sua filhinha Carol, coitadinha, o que seria dela? Sem pai, com uma mãe na prostituição, meu deus, seria levada pelo juizado da infância e ficaria num orfanato... Ou seria dada aos pais dela... E se eles contassem a verdade sobre o pai dela? Será que ela sentiria vergonha do pai? Ou será que compreenderia que ele a amava tanto a ponto de ter feito o que fez?
Não pensava mais racionalmente, foi ao Victories Tower, nesse prédio morava seu Nassib, não iria falar com o velho turco muquirana, só queria se esconder, sabia que a grã-finagem do Victories não assistia áqueles programas de baixo nível com fins eleitoreiros onde lobos travestidos de cordeiros desfiavam um sem-fim de bordões demagógicos. Tampouco, haveria lá algum exemplar de um Notícias Populares. Era só entrar e se esconder na escada por uma horas, depois saía, à noite, e ia dar uma volta pelos lados da sua casa, talvez a esposa ainda nem soubesse, deu graças a deus por não ter mais Tv em casa. Conhecia o porteiro da manhã, fora ele mesmo que o indicara para a vaga logo depois de terminada a obra. Cumprimentou-o rápido, disse que ia ao apartamento de Nassib, era convidado do almoço, Nassib o havia convidado para voltar a trabalhar na construtora, não precisava anunciar, já o estavam esperando. Subiu de elevador até o quinto andar, então entrou para as escadas.
Sentou-se e ficou encolhido, esperando que o tempo passasse logo. Pouco depois chegou um entregador, trazia a marmita do porteiro, conversou com ele, contou uma piada e falou do crime que a cidade comentava, identificaram o assassino da menina, um tal de Jerlson... Jelson¿ Jefferson, Jefferson Pimentel. Depois se foi. O porteiro ficou pensando que já ouvira esse nome, pensou, pensou, até que caiu a ficha. Demorou a acreditar no que estava acontecendo, vinte minutos depois, resolveu ligar para o Apartamento de Augusto Nassib, informaram que não estavam esperando ninguém. Ligou em seguida para a polícia, perguntou o nome do suspeito, confirmou a roupa e as características físicas, pensou na lealdade a um amigo que lhe arrumara esse emprego, mas acabou achando melhor entregar, afinal, se descobrissem que ele acobertou um assaltante poderia perder o emprego, e emprego estava tão difícil de arrumar...
A policia chegou em oito minutos, sirenes ligadas, armas na mão e muita brutalidade. Perguntaram do vigia onde estava o meliante, entraram correndo com suas pistolas, seus códigos e seus óculos escuros. Começaram a fazer uma varredura em cada canto de cada andar, em 20 minutos abriram a porta da escada do quinto andar, Jefferson saiu correndo:
- Cidadão parado! É a polícia!
Jefferson subiu correndo sem dar ouvidos, dois tiros zumbiram atrás dele. Ele não sabia o que fazer, só sabia que queria fugir, saiu da escada no décimo andar, tentou abrir a porta de algum apartamento, todas trancadas, correu pelo corredor, foi então que viu o vão ao lado do prédio, havia uma tubulação que eles colocaram pelo lado de fora para passar fios e canos, e, se ele descesse por ela? Poderia sair lá embaixo rapidinho, com certeza todos os policiais estavam subindo as escadas, desceria pela lateral do prédio, lá embaixo era só pular pelo muro dos fundos e sair na rua de novo. Subiu na sacada, esticou-se na direção do grosso tubo, segurou-se nele, tremia de medo, o corpo não queria obedecer, entretanto, seu desejo de fugir foi maior que seu medo. Agarrou-se ao tubo.
- Parado!
Jefferson ignorou a ordem do policial, ia começar a descer quando levou o tiro, o ombro ferido nem doeu, Jefferson olhou o céu, girou no ar e olhou o chão, lembrou-se da esposa, lembrou-se de Carol, sentiu-se em pleno vôo, viu se aproximarem os telhados das casas vizinhas do condomínio. E, na altura do terceiro andar, tudo ficou claro, e sua alma alçou um vôo eterno.
por Pepita * 3:01 AM
Quer falar alguma coisa?:
[Quinta-feira, Janeiro 13, 2005]
Mais uma vez a continuação do conto do Marcos César.....
Jefferson fez o sinal da cruz e seguiu o cunhado, andaram uma quadra até o local onde a moto estava estacionada, subiram. Menos de dois minutos e estavam cruzando a porta da drogaria, o cunhado dava ordens, aos gritos exigia o dinheiro do caixa, apontava a arma para todos e empurrava com o cano a testa da moça do caixa. Jefferson tremia, o coração deveria estar em 200 b.p.m, as mãos suavam frio e ele olhava para todos os lados, parecia que já se haviam passado horas desde que entraram, aos gritos, de armas em punho, naquele estabelecimento.
- É pela minha família, é pela minha família...Que Deus me perdoe...
Com o saco de dinheiro na mão o cunhado passou pela porta em direção à rua como um raio, Jefferson hesitou um segundo, e resolveu correr também. Foi aí que a coisa deu errada. Um funcionário novo da drogaria, jovem de uns 20 anos, primeiro emprego, resolveu bancar o herói, deve ter achado que se pegasse o assaltante, iria ficar em boa conta com o chefe e garantiria o emprego, talvez até chegasse logo à gerente. Segurou Jefferson e começou a lutar com ele, Jefferson assustado com a reação atirou, duas vezes, o primeiro tiro acertou umas caixas de Ampicilina injetável, o segundo atravessou o coração de Maria Aparecida das Neves, a moça do caixa. O mundo parou naquele instante e Jefferson só viu Maria Aparecida caindo, sangrando, no mármore frio da loja. Desvencilhou-se do funcionário que com ele digladiava por obra do cunhado, que voltando assustado pelo estampido do tiro acertou dois balaços no jovem insensato. E, assim, Jefferson entrou na maior encrenca da sua vida.
O cunhado não esperou por Jefferson, fugiu com a moto logo depois de atirar, e Jefferson se viu só. A máscara foi tirada durante a luta e ele demorou a perceber que seu rosto agora era conhecido, deve ter ficado gravado pra sempre no olhar de Maria Aparecida, 22 anos, o rosto assustado de seu assassino. Sem seu mentor e sem o veículo da fuga, Jefferson desesperou-se, não sabia o que fazer, queria correr, e correu. Fugiu da frente da drogaria como um velocista, empurrou pessoas, derrubou uma barraca de camelô, ignorou xingamentos e seguiu sem rumo até encontrar um terreno baldio, entrou nele e se escondeu no mato. O coração batia a mil, ofegava como alguém que se salvara por pouco do afogamento, sentou-se sobre o barro lodoso sem se preocupar com a roupa, olhou a arma, pensou em Maria Aparecida caindo, lembrou do jovem baleado escorregando em seus braços, lembrou o cunhado fugindo sem espera-lo e, de repente lembrou-se de Carol, de sua esposa, de sua casa, e sentiu que havia errado. Jogou a arma no mato e chorou, de arrependimento, de dor, de luto, de ódio e tristeza. Perguntou a Deus o motivo de tanto castigo, lembrou-se da mãe, da infância, dos amigos da escola, e novamente de Carol, sua vida passava em flashes desconexos.
- Meu Deus, o que foi que eu fiz?
Não deveria ter sido assim, deu tudo errado, não era pra ter reação, nem tiros, nem mortos, era só pra pegar a grana e sair, sem traumas. Rápido, fácil, pagaria a conta do açougue, o gás, o leiteiro, a padaria...Depois a policia chegaria, atrasada, e dois ou três policiais gordos iriam fazer anotações em caderninhos com capa de bichinho, sairiam com a sirene da viatura ligada, pegariam a primeira dupla de negros que encontrassem e os levariam ao xadrez, uns tapas e pescoções, chutes nas partes genitais e uma noite na cela. Depois iriam aparecer os parentes, as provas óbvias da inocência, e o delegado iria mandar solta-los (¿vamos deixar esse mal-entendido pra lá que é melhor pra todo mundo...¿), pronto, ele teria algum tempo de paz em casa, sua esposa iria sorrir de novo, iriam fazer amor, daria de presente uma boneca para a filha, e voltaria a procurar emprego. Mas aí, a droga daquele fedelho se meteu...
Dormiu ali, naquele matagal, aquela noite, teve sonhos ruins, viu sua filha chorando, sua esposa numa esquina, vestido curto, cabelo loiro e lábios vermelhos, oferecia-se para os motoristas que passavam. Depois sonhou que estava numa pedreira, vestido de prisioneiro e um capataz empurrava-lhe as costas com o cano de um rifle e o xingava de nomes feios, virou-se e viu o rosto do capataz, era seu cunhado, cuspiu nele e riu. Acordou no meio da noite assustado, desejou estar em casa, ao lado da esposa, na sua cama. Chorou muito e demorou a dormir de novo. Quando o sono veio sonhou que estava num velório, alguém se aproximou dele, falou que a cidade estava violenta, que a moça morreu num assalto, convidou-o para o dominó, bateu em seu ombro e se foi, Jefferson aproximou-se do caixão, queria olhar a morta, no caixão viu Carol, mais velha, morta, e ouviu, atrás de si, um grito (¿assassino!¿), olhou para trás, era sua esposa, vestia o uniforme da drogaria e estava suja de sangue na altura do peito. Depois disso não conseguiu mais dormir. Viu amanhecer o dia e pensou que sua esposa deveria estar preocupada, se ainda tivessem um telefone ele ligaria, a cobrar, para ela.
por Pepita * 2:15 AM
Quer falar alguma coisa?:
[Quarta-feira, Dezembro 22, 2004]
Fi8nalmente a continuação do conto "O Vôo" do Marcos César... (antes tarde do que nunca)
Claro que ele recusou, esse convite, duas vezes, recusaria outras mil vezes se dependesse da sua consciência, mas a situação começou a desarmar-lhe as defesas morais. Pensou nisso a noite toda, pensou que talvez seu cunhado estivesse certo, família, isso exigia medidas drásticas, queria pagar algumas contas, encher a dispensa, dar um brinquedo à filha e recolocar um sorriso no rosto da mulher. Tudo isso, pensou, seria possível, se criasse coragem. Mas a situação não estava boa a ponto de deixa-lo fazer escolhas, era pegar o serviço e resolver, pelo menos por enquanto, o problema. Depois iria à missa, pediria perdão, Deus tinha que entender que ele não era mau, afinal, se Deus não o ajudou a arrumar emprego nesses 31 meses, não poderia, agora, recrimina-lo por fazer algo assim em nome do bem-estar da família.
Caiu da cama às cinco horas, fez o café, recebeu a esposa com um sorriso na cozinha quando ela acordou - cara amarrotada e mau-humor matinal. Falou que tivera um bom pressentimento, que achava que ia descolar alguma coisa, que Deus deu um sinal: sonhou que todos estavam no parque, bem vestidos, ele carregava Carol no colo e havia muitos sorrisos, não perdera o bom-humor nem quando acenavam para os pais dela que passeavam de canoa no meio do lago. Sentira, enfim, que havia uma luz no fim do túnel. Saiu às sete horas, ficou enrolando até as dez, quando, finalmente, foi atrás do cunhado, sabia que ele não acordaria antes das onze da manhã, sempre preguiçoso e vadio, mas também sempre com dinheiro, vivia metido em parada errada fazia de tudo, roubo, assalto, receptação, até, de vez em quando, passava uns bagulhos para os pivetes do bairro, não perdia uma oportunidade de ganhar dinheiro, desde que fosse dinheiro fácil. Foi preso duas vezes, mas escolheu um bom advogado, pagava fiança, dava presentes para o delegado e estava na rua antes mesmo de se esquentar a cela. Era um vigarista detestável, mas agora era o único aceno de esperança. Jefferson bateu, na porta várias vezes até que ouviu a voz desconfiada do cunhado.
- Quem é?
- Sou eu, Jefferson, tenho de falar uma coisa contigo.
A porta abriu-se, Jefferson entrou, apertou a mão do cunhado (¿Jeff! Que é tá pegando, meu?¿), contou a ele a situação, disse que pensou na proposta, que não tinha escolha, topava. O cunhado disse que ele tomara a decisão mais acertada, que quem tinha família tinha mesmo é que virar etc, depois explicou a Jefferson todo o funcionamento da coisa, pormenores do negócio, detalhes técnicos, mostrou as armas, daria uma para Jefferson, mas só por garantia, não era pra ele usar de jeito nenhum. De resto explicou o alvo que já tinha na mira há dias mas estava sem parceiro, negócio grande assim não é bom fazer sozinho, é preciso olheiro, um cabra de fé, assim como Jefferson.
- No fim da tarde, já quase na hora de fechar, o caixa tá cheio da baba é chegar, pegar e sair, sem escândalo. É parada certa, já assaltei lá uma vez e outros carinhas já agiram outras três, o dono já até acostumou, vive fazendo seguro, é só tu lembrar, não me chama nunca pelo nome lá, me chama de cachorrão, sacou? Cachorrão.
- Tá, tá. Cachorrão, cachorrão, cachorrão, cachorrão. O que a gente faz agora cachorrão?
- Aprende rápido chapa, é isso aí, mas se liga meu, só me chama assim na hora ação, fora de lá esquece, sacou?
Almoçaram juntos as três da tarde, duas horas e meia depois saíram pra fazer o serviço, o cunhado lhe explicou que deveriam ficar na praça em frente ao alvo por uns 20 minutos, observar o movimento, sentir como estava o clima no local, não podiam dar sopa pro azar, existia uma crendice entre os ladrões: ¿se seu olho tremer, chapa, é melhor desistir que é fria¿. Havia outras superstições: sonhos, cores, rezas. Enfim, havia um ritual de fé tão intenso quanto em qualquer igreja. Jefferson ouviu tudo, ficou de cabeça baixa o tempo todo, aprendeu que não deveria encarar ninguém, pois isso podia facilitar o reconhecimento, olhava de canto de olho o local escolhido, simulavam uma conversa sobre amenidades ao aproximar-se um estranho, verificaram a movimentação da polícia, nenhuma viatura na área. Na hora que Jefferson viu chegar um carro preto luxuoso o cunhado deu o sinal, era o dono que chegava sempre na hora de fechar para fazer a contabilidade do dia.
- Não esquece, é só enfiar esse troço na cara, ficar de antena ligada e nada de caô, meu. Vai dar tudo certo.
***continuará...
por Pepita * 1:25 PM
Quer falar alguma coisa?:
[Terça-feira, Dezembro 21, 2004]
Nossa.... quanto tempo não atualizo... são 2 meses sem uma palavra, são dois meses de boca fechada para o mundo... Bem, minha vida anda uma correria, ou melhor, estava assim, agora é só férias, mas uma vez uma espécie de monotonia se instala em meu ser, e assim se passa mais um período de completo abandono do mundo real.
Estou sem net em casa, logo não posso nem continuar o que habvia começado, o conto do meu amigo Marcos, mas pretendo trazer pra esses computadores públicos em disquete, só não vai poder ser hoje.
Mas só para variar, estou em pleno desenvolvimento intelectual, uma bruta criatividade se instala em meu peito como se fosse durar a eternidade e até contar histórias para meu subconciente estou conseguindo fazer... coisas do tipo, um cara passa na rua olha pra moça q está na sua frente e pronto, é o suficiente para eu imaginar uma série de acontecimentos envolvendo obcessão (é assim que se escreve?) traição, amor reprimido, enfim... coisas bem grotescas que invadem minha mente em frações de segundo, que com a mesma rapidez se desfaz ao encontrar um mulher que quando levantou jogou um papel de bom-bom no chão (aí eu já imagino o bom bom pensando sobre sua triste e alegre vida de bom bom)... enfim... acho que ando assistindo muito desenho animado.
Ah! Da próxima vez que eu for usar um computador público eu trago o conto do Marcos... (Se que alguém ainda lê esse blog, ou ateh mesmo se interesse pelo conto, afinal faz tanto tempo....)
ObS.: Agora a culpa do meu template ter mudado num é minha não... foi o tamplate shop que resolveu ser desativado...
por Pepita * 1:00 PM
Quer falar alguma coisa?:
[Sábado, Outubro 16, 2004]
Foram dois anos e sete meses de procura, bateu na porta de todas as construtoras da cidade, durante os seis primeiros meses, comprava o jornal todos os dias, depois começou a lê-los na biblioteca, passou a ir procurar emprego de bicicleta, pra economizar, depois furou o pneu da bicicleta e ele começou a caminhar. Fazia jejum todos os dias (sem nenhuma intenção ascética), traçou estratégias, reativou velhos contatos, fez promessa, simpatia, corrente da libertação, tudo, nada disso resolvera seu problema então, inevitavelmente, começaram a receber ajuda dos pais dela. Ele detestava isso mais do que tudo, ter de aceitar ajuda daquele velho militar aposentado que nunca gostara dele, que dizia que ele era um fracassado, que não servia pra casar com a filha dele, que ela deveria casar o Tenente Artur Ramos (¿esse sim é um rapaz direito que vai te dar algum futuro¿), isso doeu mais fundo na sua alma, e ele teve de aceitar calado.
Nesta manhã saíra de casa às cindo da matina, e caminhara nove quilômetros para fazer uma entrevista. Era uma construtora de médio porte e ele acreditava que agora iria dar certo, tinha um currículo impecável: Técnico em edificações pela Escola Técnica Federal do Amazonas, com um diploma em informática básica da Power Bit Informática e dez anos de experiência na área. Tudo bem que não iria começar ganhando o que merecia um profissional do seu nível, mas com certeza, com a sua ajuda, a companhia iria crescer rapidamente e ele logo teria reconhecido seu inequívoco mérito, receberia uma promoção e um aumento, logo estaria comandando pessoas, dando ordens, impondo seu ritmo, seria convidado para jantar na casa do chefe e daria a luz a mais uma obra de arte em ferro & concreto. Mas a entrevista não foi boa, não tinha o perfil da companhia, disseram que qualquer coisa iriam ligar. Mas ele já estava calejado demais nesse negócio de entrevista, conhecia aquela frase, aquele tom de voz, aquele olhar, sabia que não tinha sido aprovado, possivelmente haviam se assustado com seu currículo, deveriam estar querendo um estudante recém formado, que trabalhasse por pouco, não tinham vaga para um homem mais velho, mais experiente, e que, com certeza, não trabalharia contente numa empresinha como aquela.
Encolheu a barriga diante da porta, pensou em fazer uma cara sorridente, igual a que tinha quando chegava do trabalho na Nassib Engenharia, mas não lembrava mais qual a cara fazia naquele tempo. Ademais pensou que isso poderia dar falsas esperanças a sua mulher, também não queria entrar com aquela cara de derrotado que fazia sua mulher sentar no sofá e, silenciosamente, verter uma única lágrima do olho esquerdo, certamente nessas horas ela deveria lembrar do que pai dela dizia, devia pensar no tenente Artur Ramos (já deve ter sido promovido a capitão), e isso o fazia entristecer como um pássaro preso. Resolveu fazer uma expressão neutra, entre esperança e incerteza. Entrou. Sua filha correu a abraçar-lhe como de costume (¿Papai!¿), a esposa veio da cozinha desvencilhando-se do avental. (¿Oi amor!¿), perguntou da entrevista. Ele quis mentir, mas não foi capaz, disse a ela que achava que não tinha dado. Sentaram-se no sofá, ela contou que o pai havia mandado avisar que não ia mais poder pagar a escola da pequena, que ela fosse atrás de matricula numa escola pública. Ele ouviu tudo calado, derrotado, levantou do sofá, foi ao banheiro, chorou baixinho, e só foi jantar depois de todos terem terminado. Na cozinha, cabisbaixo em frente ao prato frio de ovo frito com arroz, ele comia, pareciam-lhe sem sal o arroz, o ovo e a vida. A esposa sentada em frente dele tentou ser delicada:
- Jefferson, meu bem, pelo amor de deus, dá um jeito nessa situação.
- Que jeito? Hein! Que jeito? Não tenho saído todos os dias atrás de emprego? Que mais você quer que eu faça? Que eu roube um mercado? Que eu seqüestre alguém?
- Não homem! Deixa disso! Sei lá, vende alguma coisa, senão a gente acaba passando fome, as coisas todo dia ficam mais caras e o dinheiro que o meu pai manda não aumenta...
O apetite de Jefferson acabou, nem mesmo o jejum do dia o fizera querer continuar comendo, levantou-se e foi para a sala, sentou-se no sofá e ficou até tarde olhando para o vazio na estante, já tinha vendido a Tv e o Som, agora, naquela estante restaram os enfeites, copos de chope e cisnes de porcelana, livros velhos e discos que ele não podia mais ouvir. Deitou-se tarde, a esposa fingiu que estava dormindo, ele fingiu que acreditou. Não faziam amor já há muito tempo, não tinham clima para o romance. As preocupações eram tantas (uma para cada conta a vencer, e duas para cada conta vencida) que ele não tinha cabeça para amar a esposa.
De madrugada, ainda acordado, lembrou da proposta que recebera do cunhado:
- É tudo muito simples, é só você me seguir e ficar de olho em tudo, daí a gente sai fácil e racha a grana, saca? Qualé? Tu tá pensando o que? A gente tem família meu, saca? Família, filho, essas coisas exigem que a gente faça alguma coisa pô, não pode ficar aí mendigando emprego enquanto tua filha chora de fome...É meu, depois tua mulher te larga pra ficá com um velho cheio da grana e tu fica aí, na merda. É só tu fazê esse servicinho comigo, pegá uma grana, pagá umas conta, fazê uns rancho e ficá tranqüilo com a tua família por uns tempo, saca?
***Continuará....
por Pepita * 2:28 PM
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[Sexta-feira, Outubro 15, 2004]
*** Bem, daqui pra frente, acho que durante alguns posts vocês vão ver um conto do meu amigo Marcos César. Quando li, tive uma boa sensação, e portanto, gostaria de compartilhar um pouco dessa realidade....
O Vôo
Jefferson hesitou em frente ao portão de sua casa, não queria entrar, não queria ter de re-encontrar sua filha e ter de dizer a sua esposa que ainda não tinha sido dessa vez, que ele não tinha conseguido aquele emprego. Cabisbaixo, cruzou o portão, atravessou o pequeno jardim e parou em frente à porta, custava-lhe girar aquela maçaneta, ultrapassar aquela porta que ele tanta vezes cruzara vitorioso, vindo de uma longa jornada de trabalho. Técnico em edificações, dizia com o orgulho de quem se considerava mais importante que os próprios engenheiros da obra, esses, aliás, costumava chamar de pedreiros de canudo, dizia deles que não eram capazes de reconhecer concreto nem se caíssem dentro dele. Dizia que se não fosse pelos peões que ele comandava nem uma parede seria erguida, quanto mais um Victories Tower, gostava de falar dessa obra, um luxuoso condomínio, sentia-se meio dono dela, sentia-se criador de todas as obras em que trabalhara, trocadilhava com a literatura, eram as suas poesias concretas.
Trabalhara por longos sete anos na Nassib Engenharia, conhecia todos: o dono, peões, engenheiros (conhecia até mais engenheiros do que gostaria). Orgulhava-se de ter sido convidado para a jantar com o próprio Augusto Nassib por ocasião do reveillon de 1988, levou a família e ficou na mesa dos empregados, na mesa de Nassib só familiares e seu engenheiro de confiança. Então veio, sem aviso, a crise. Costuma-se usar a construção civil como termômetro da economia, então, naquele ano a economia estava tendo hipotermia. A venda de cimento caiu 52% as construtoras amargavam uma queda nas vendas da ordem de 40%, e os cortes de pessoal foram inevitáveis. Claro que Jefferson não se abalou com a notícia, não esperava que um funcionário tão importante como ele pudesse ser assim demitido por conta de redução de funcionários. Na primeira lista de dispensas seu nome fora o sétimo, logo abaixo do nome do João cara-de-cansado. Inesperadamente escalado para a seleção dos desempregados, Jefferson ainda tentou falar com o Sr. Nassib, esperou-o na porta do escritório. Naquela noite, em especial, ele demorou a largar o batente, saiu às dez da noite, acompanhado de seu engenheiro de confiança, não deu ouvidos a Jefferson, apenas bateu-lhe no ombro e disse: ¿- sinto muito meu filho¿. Colocou seu indefectível chapéu e entrou com o engenheiro no carro. Jefferson fervia de raiva, só poderia ter sido aquele bosta daquele engenheiro metido, inventou alguma coisa dele, mentiu é certo, estava com inveja. Jefferson pensou em vingança, em morte, em sangue, aí lembrou-se de sua esposa, de sua filha de dois anos, Carol, e resolveu que a melhor forma de se vingar era dar a volta por cima e arrumar um emprego melhor que aquele, afinal, ele era um profissional altamente gabaritado e capaz.
por Pepita * 1:05 PM
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[Domingo, Outubro 10, 2004]
Minha vida
És minha sina
Meu caminho afora,
Minha vida meu presente
Meu futuro minha morte.
És o alívio da minha dor
A corrente que prende meu
Coração, o lenço que enxuga meu pranto.
A água que mata a miha sede,
És o orvalho que molha meu jardim,
O ar que me dá vida
A mão que me sustenta
A força que me conduz
A paz que está em mim.
Irene Borges Castro
*** Admito estar sendo envolvida por um grande sentimento. Admito ser um "ser humano" e admito mais, sou alguém que chora. Que sente vontade de chora e falar pro mundo o que penso e como sou. Por isso a mudança do template, tirei o piercing =( sou atriz infantil (e gosto de fazer isso sem parecer ridícula) e amo de paixão a idéia de ser publicitária... Bjus pras pessoas que ainda olham pra mim, ou seja, que ainda percebem a minha existência....
por Pepita * 11:21 PM
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